Pacato cidadão: todo dia matamos um mendigo
- Bruno Jarotzky Neto
- 30 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Não é de hoje que o Brasil, como um estado bipolar que oscila entre o abuso e a negligência, já expressa profundo desinteresse e amadorismo em fornecer proteção e cuidado real aos cidadãos. Vivemos hoje (e há muito tempo) em uma sociedade na qual o processo civilizatório que instrumentaliza os burocratas e as forças armadas garante uma desordem social derivada da insustentabilidade de nossas gambiarras jurídicas que vêm desmoralizando o código civil. Não desviando do foco desta publicação, me pergunto desde quando nos acostumamos a sacrificar nossa consciência moral ao ponto de percebermos que os índices de analfabetismo, a falta de medicina preventiva pública e a estagnação dos agentes de segurança estão com suas pautas anuladas entre as massas.
Neste processo agressivo da civilização humana, há décadas que aqui na Pátria Amada Brasil, artistas vêm elaborando trabalhos críticos muito bem contextualizados em seus momentos históricos. Momentos históricos que ouso dizer que são históricos apenas nos livros de história, pois hoje ainda se aplicam as críticas aos absurdos de ontem. Hoje reflito sobre o que de fato é violência, se hoje nossa geração sequer vislumbra possibilidades de luta armada para conquista ou defesa de territórios, revolução ou guerra.
"Violência não é só quando uma pessoa nos assalta, violência não é só quando um policial bate com um cacetete na cabeça da gente, violência também, e muito maior, é não ter direito a cultura, é não ter direito a trabalhar, é não ter direito à saúde, é não ter direito à felicidade ou liberdade" - Gonzaguinha
Gonzaguinha era um cantor e compositor visado por seus contemporâneos autoritários em sua postura crítica à ditadura militar desencadeada pelo Golpe de 64. Sua fala acima eu transcrevi de um videoclipe no YouTube. É claro que, ideologicamente, eu tenho meus protestos contra o liberalismo democrático de classe média "hippie" de muitas personalidades artísticas do nosso país. Porém, há uma boa reflexão sobre as diferentes escalas de um ato violento e que nem sempre nos damos conta quando discretamente somos arrastados ao caos social através de manifestações culturais tão inerentes em nossas interações sociais que fazem apenas parecer que os absurdos que vemos nos dias de hoje são apenas a ordem natural das coisas. Trata-se de uma música curta com duas estrofes.
Em "Pacato cidadão", Gonzaguinha inicia contextualizando as atitudes de um cidadão tido como pacato, porém no exercício de suas atividades do dia-a-dia, narra que talvez a violência física não seja a única violência e nem a maior.
E eu nem atino, mas, todos os dias, Calmamente, assassino meu vizinho de cima. E, pela cidade, sem qualquer maldade, Mato, tranquilamente, Que se me ponha na frente. Através dos suores, humores e gestos e olhares (Atitudes que a barra da vida põe em nossas mentes).
Ao ler o trecho acima, já deve ter notado, talvez, aquele clichê de salvar o mundo com a gentileza, que deveríamos sorrir para o cobrador de ônibus mais vezes. Porém, uma camada um pouco mais além que esta música nos leva é, de fato, tratar a nossa correria do dia a dia não apenas como falta de gentileza, mas como uma profunda cultura de relações interpessoais sucateadas em nossa sociedade. Que o simples ato de viver nos faz suar no trabalho, controlar nosso humor nas negociações, gesticular ao invés de expressar-se verbalmente e olhar as pessoas com um olhar vazio, pois, no fim das contas, somos todos apenas mais um nas multidões. E, em nossa insignificância, pergunto: quantas pessoas "matamos" apenas por uma atitude tipicamente sistematizadora do egoísmo humano?
E, assim, de repente, deixei de ser gente, Sou mais um bicho na rua pra vencer qualquer batalha. Um novo Cristo se malha num poste, Amarrado, Pra lavar nossas dores desses dias tão pesados. Mais um pacifista se iguala à policia e ao ladrão, Um pai de família: pacato cidadão, Que não nota que o filho Só ouve e repete A palavra Não.
Profundo este segundo e último trecho acima. Agora deixa de ser gente, pois sua consciência já não existe mais; torna-se um bicho para vencer qualquer batalha, que nada mais é que o dia a dia nesta sociedade. Uma sociedade tão desviada que apenas um novo Cristo amarrado num poste para nos salvar. É uma analogia clara aos textos bíblicos que afirmam a morte dEle por nossos pecados, como se já tivéssemos regredido tanto que o único sacrifício válido e necessário na fé da religião predominante no Ocidente já não fosse mais suficiente.
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